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terça-feira, 8 de março de 2011

SESSÃO DA CLASSE apresenta: "Um brinde ao fracasso", por Roberto Oliveira

Falar sobre o sucesso esta muito mais para o Roberto Shinyashiki do que para mim. Lair Ribeiro que me desculpe, mas sou muito mais chegado num fracassinho. Tenho uma coleção de pequenos e grandes fracassos na minha vida. Questão de personalidade, gosto ou apego. Aquela "sensação de fracasso" tem seu valor. Oscilo muito, me chicoteio, me elogio. Claro que quero a presença numerosa do público, mas não quero dar a eles o que eles querem. O Shinyashiki diz que para atingir o sucesso tem que "sacrificar feriados e domingos pelo menos uma centena de vezes". Legal. Devo estar perto do sucesso, porque já acabei com milhares de feriados, detonei milhares de finais de semana ensaiando. Esse papo de sucesso está mais para equipe de vendas, para psicologia motivacional. Prefiro morrer agarrado aos meus lindos fracassos a frequentar os corredores de auto-ajuda das livrarias. Talvez até me fizesse bem, mas não estou preparado pra isso.
Aí eu pensei: o que é sucesso de público em Porto Alegre? Quando muitas e muitas e muitas pessoas vão na tua peça, quantas pessoas são? Aí você sai na capa dos jornais? Não sai. Fica conhecido da noite para o dia? Não, você continua um anônimo. Você ganha uma fortuna? Não, claro que não. Então, que sucesso é esse? Sucesso entre os seus pares. Conhecidíssimo na Casa de Teatro.

Outro pensamento: Sucesso está associado com muita grana. Os caras do Facebook, o dono da Microsoft. Sucesso está associado com muita fama. A Natalie Portman depois do Oscar. Sucesso é estar no topo. Mas, que grana, que fama, que topo aqui em Porto Alegre? O morro da Embratel? Porto Alegre tem, aproximadamente, um milhão e meio de habitantes. Destes quantos frequentam espetáculos de teatro e dança? Cinco por cento? Dois e meio por cento? Em São Paulo, que tem 12 milhões de habitantes, acredita-se que 200 mil vão ao teatro. Quando falamos em sucesso de público em Porto Alegre estamos falando de quanto público? Algo entre 20 e 25.000 que hipoteticamente vão ao teatro.
Também acho que esta nossa discussão está muito confusa. Mistura-se sucesso com êxito, com liberdade, com topo, com fama. O Hamilton inventou até o sucesso geográfico. Haveria o sucesso de público e o sucesso estético. Mas também no caso deste último, se é que isso existe, Porto Alegre nos limita. Que sucesso estético podemos criar com os orçamentos minguados que operamos aqui na cidade? Trabalhamos na precariedade e almejamos o sucesso. É um contra-senso.
Não sei o que é sucesso. Mas, se quiserem conversar sobre alguns bons fracassos é só me procurar. Vamos ter assunto por bastante tempo. Vai ser um sucesso.



Roberto Oliveira, ator e diretor.

domingo, 6 de março de 2011

Sessão da classe apresenta: A FALTA, O ENIGMA E A COISA, por Alexandre Vargas

O Sucesso transcende as limitações de lugar e tempo? O rosto do público é completamente legível, visto que a arte de mascarar sentimentos tem se aprimorado a um grau considerável? A vulnerabilidade do pensamento intelectual vigente à sedução pelas doutrinas sociopolíticas, sendo ela tanto de direita quanto de esquerda, e sua presteza em aceitar o totalitário pela proteção de um futuro hipotético é garantia de sucesso? Cabe lembrar que nas democracias populares a doutrinação é reforçada por todo o poder do Estado, e os homens se agarram a ilusões quando não há mais nada a se segurar. Tal debate perdura em minha mente, encontro-me induzido a um ponto em que uma escolha deve ser feita, diz respeito às crenças que estão situadas na base da existência humana. O sucesso pode ser meu se eu pagar o preço: a obediência? Chego ao meu limite, contudo, tenho a impressão de estar participando de uma demonstração de hipnose em massa.

Como observador, é fácil pensar sobre tal decisão de renegar qualquer cumplicidade à tirania. No entanto, minha decisão não procede da mente funcional e racional, mas da revolta em meu estômago. A história se passa no Brasil, mais precisamente em Porto Alegre, por volta do futuro próximo ou até mesmo no presente, ou seja, o ano de 2011. Como o pensamento de um filósofo privado, sem o respaldo de citações das autoridades é pura insensatez, inicio “À falta, o enigma e a coisa: O SUCESSO” com uma epigrafe de Walter Benjamin e a desconcertante obra da multi-artista australiana Patricia Piccinini. Não sei se a tentativa de gerar discussão vai obter sucesso! (Leia o texto na integra aqui)

Alexandre Vargas - Ator, diretor e produtor Cultural. Fundador do Grupo Falos & Stercus, Coordena o C.P.T.A. - Centro de Pesquisa Teatral do Ator e o Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre. Escreve o "Caderno de Teatro" para a revista ArteSESC.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Sessão da Classe apresenta: POR FAVOR, SUCESSO!!! por Camilo de Lélis

A palavra sucesso vem do latim (successu): aquilo que sucede, acontecimento, parto, caso, fato, êxito, resultado. Insucesso ou fracasso - seu antônimo - é o que não sucede, não acontece - um aborto -, algo que nem chega a acontecer; portanto, só seria insucesso, uma peça que é ensaiada, mas não vem a estrear.
Sucesso não é necessariamente um bom acontecimento: pode haver bom sucesso e mau sucesso. Dependendo do ponto de vista, um bom sucesso para uns seria um mau sucesso para outros, por ex: o "Big Brother", que para a maioria dos telespectadores é um acontecimento bom, para uma minoria, é um mau acontecimento, que traz emburrecimento à população.
Assim, a palavra sucesso, que é um substantivo, aceitaria vários adjetivos sobre si: belo, feio, bom, mau, curto, rápido, longo etc. Entretanto, tornou-se, pelo uso e até pelo dicionário, sinônimo de resultado "feliz", assim como "êxito" ou "fortuna", que as pessoas esquecem que podem ser algo mau e só os entendem pelo lado positivo. Por ser viva, a língua vai mudando, mas saber a origem das palavras ajuda bastante a compreender as coisas.
Resumindo, todo o artista que dá a luz a um trabalho, atinge um sucesso (acontecimento), porém este poderá ter bom ou mau reconhecimento. Por isso, qualificar de bom ou mau o sucesso de um espetáculo é, no mínimo, muito relativo. Podemos considerar, pela quantidade de público, um sucesso bom? Ou, seria pela qualidade do espetáculo? Aqui a coisa se estreita em referenciais bem diversos. Ora, dois sucessos bem diferentes podem, algumas vezes, vir a se somar numa única peça e ela terá sucesso de público e sucesso de crítica. E sucesso, assim, é o sonho de todo artista.
Vejamos: bom sucesso de público (ou, apenas sucesso, para simplificar) é fácil determinar. É só contar o resultado no borderô. Sucesso de crítica é o que vai qualificar a peça de boa ou ruim, independentemente de que ela leve milhares de pessoas ao teatro, ou que a casa esteja vazia. Sucesso de público é algo palpável, visível, são as filas diante do teatro. Já o sucesso de crítica depende de algo bem subjetivo. Vale a tendência, a política, a intriga, ou o prestígio que alguém adquire para ditar a qualidade e o bom gosto em termos de arte.
A única maneira de nos livrarmos dos vampiros da crítica é, depois de mordidos por eles, tornarmo-nos críticos também; críticos a disseminar, por aí, outros conceitos do que pode ser bom ou mau. É o que está acontecendo em Porto Alegre. Vários artistas começam a escrever e a opinar sobre teatro, para que o pensamento crítico não fique, unicamente, à mercê de alguns. A saída é a diluição do malefício. Se alguém diz "A", por isso ou aquilo, também posso dizer "não A", por isso e também por aquilo. Já que a época é de sofismas, o melhor é conhecer as armas da oratória. Simplesmente, porque tudo depende. Sim, desde Einstein, o universo prende-se somente à relatividade, então se vc diz “gosto”, posso dizer “não gosto”, apenas isso, mais nada.
Quanto ao sucesso: todas as minhas peças foram sucesso, pois as fiz, dei-lhes a luz, pari-as em parceria com outros artistas das artes cênicas, que comigo "copularam mentalmente" para suas concepções. Algumas levaram muito povo ao teatro. Em outras, nenhuma gente havia na plateia. Fiz teatro, isso basta. Nisso sou bem sucedido.
É preciso ir adiante nesse raciocínio e chegar a outro substantivo que é "reconhecimento". Porque queremos sucesso? Porque clamamos aos deuses: "Por Favor Sucesso!" ? Vamos entrar na sociologia e na psicanálise. Pois é...depois eu sigo adiante. Ou, melhor, o leitor, se quiser, poderá seguir a partir daqui.

Camilo de Lélis, Diretor de Teatro.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Sessão da Classe apresenta: discutindo sobre o sucesso pela via negativa, por Daniel Colin

Quando fui convidado para esta Sessão da Classe, cujo tema será o 'sucesso', a primeira imagem que me veio a cabeça foi a do Quiz Kid Donnie Smith, personagem do filme Magnólia, de P. T. Anderson. Tal personagem, interpretado sensivelmente por William H. Macy, a bem da verdade, representa o FRACASSO: alguém que foi muito famoso quando criança e que carrega o peso de nunca mais conseguir ser tão bem sucedido quanto outrora. O fato dele carregar o apelido daquela época - Quiz Kid - já é um exemplo notório desse peso.

Por que não discutir sobre o sucesso refletindo acerca do FRACASSO?

Decidi então postar dois diálogos do filme, como atiçadores de questionamentos sobre o sucesso vs. o fracasso.

Os diálogos estão em inglês porque foi assim que os encontrei na internet e não me achei apto o suficiente para traduzi-los. Além do mais, para aqueles que não entenderem, fica a provocação de assistir ao filme, que é imperdível.

"Quiz Kid Donnie Smith:
Do you know who I am?
Thurston Howell:
You're a friend of the family, I presume.
Quiz Kid Donnie Smith:
What does that mean?
Thurston Howell: Nothing special.
Just a spoke in the wheel.
Quiz Kid Donnie Smith:
You talk in rhymes and riddles and r-Rub-a-Dub. But that doesn't mean anything to me. See, I used to be smart. I'm Quiz Kid Donnie Smith. [loudly]
Quiz Kid Donnie Smith:
I'm Quiz Kid Donnie Smith, from TV.
Thurston Howell:
It might have been before my time.
Smiling Peanut Patron #1:
I remember. In the Sixties, right?
Quiz Kid Donnie Smith:
I'm Quiz Kid Donnie Smith.
Thurston Howell:
Like you said.
Smiling Peanut Patron #1:
Smart kid! You got struck by lightning once.
Quiz Kid Donnie Smith:
So what?
Smiling Peanut Patron #1:
I heard about that.
Smiling Peanut Patron #2:
Did it hurt?
Thurston Howell:
But you're all right now. So what's the what?
Quiz Kid Donnie Smith:
What?
Thurston Howell:
That's right."

"Quiz Kid Donnie Smith:
I used to be smart, but now I'm just stupid.
Thurston Howell:
Brad, dear, who was it that said..."A man of genius has seldom been ruined but by himself"?
Quiz Kid Donnie Smith:
[quietly; to himself] ... Samuel Johnson...
Thurston Howell:
It was the lovely Samuel Johnson! Who also spoke of a fellow "who was not only dull... but a cause of dullness in others."
Quiz Kid Donnie Smith:
"The cause of dullness in others."
Thurston Howell:
Picky picky!
Quiz Kid Donnie Smith:
Let me tell you this; Samuel Johnson never had his life shit on... and taken from him, and his money stolen! Who took his life and his money? His parents? His mommy, and daddy? Make him live this life like this... A man of genius who gets shit on as a child!... and that scars! That hurts! Have you ever been hit by lightning? It hurts. It doesn't happen to everyone. It's an electrical charge. It finds its way across the universe... and it lands in your body, and your head! And as for ruined, but by himself... not if his parents took his freaking life... and his money, and tell you to do this... and to do that, and if you don't...
Smiling Peanut Patron #1:
Your parents took your money you won on that game show?
Quiz Kid Donnie Smith:
Yes! They did.
[to Thurston]
Quiz Kid Donnie Smith:
What does that mean, a spoke in the wheel?
Thurston Howell:
Things go round and round, don't they?
Quiz Kid Donnie Smith:
Yes, they do... They do. But I'll make my dreams come true.
Thurston Howell:
Sounds sad as a weeping willow.
Quiz Kid Donnie Smith:
I used to be smart. But now I'm just stupid.
Thurston Howell:
[raising his glass] Shall we drink to that?"

DANIEL COLIN - Ator, diretor, dramaturgo e performer. Integrante e fundador do grupo Teatro Sarcáustico. Ganhador de diversos prêmios, dentre os quais os Troféus Açorianos de Melhor Espetáculo 2010 e Direção por Wonderland e o que M. Jackson encontrou por lá

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Sessão da Classe apresenta: Uma boa história de Sucesso, por Eva Schul

Creio que uma boa história de sucesso é a do meu grande amigo Luiz Melo. Depois de anos atuando como principal ator do Antunes em São Paulo, e de receber todos os prêmios possíveis nacionais e internacionais, recebeu um convite para atuar nas novelas da Globo. Antes reconhecido apenas em São Paulo, passou a ser conhecido em todo o país. Brigou com o Antunes que não aceitou a mudança, ganhou dinheiro e rapidamente foi virando escravo. Percebeu que, para escapar dos grilhões e poder continuar artista, teria que deixar de morar no Rio, afastar-se e escolher onde aparecer. A partir deste momento, usou o que ganhou e criou primeiro uma escola de atores e em seguida um centro cultural com salas de ensaio, oficinas e exposições. Hoje, bem mais feliz, atua em espetáculos teatrais, cinema, especiais de tv e organiza exposições.
Consegiu manter-se fiel a sua arte, usufruiu do sucesso e desenvolve seus projetos culturais.

Eva Schul - Precursora da dança contemporânea gaúcha, diretora e coreógrafa da Anima Cia de Dança, professora e pesquisadora.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Sessão da classe apresenta: Patricia Fagundes

Para se ter e ser sucesso, sorria sempre! Quando você sorri, mesmo que não esteja sentindo nada, o seu cérebro recebe uma mensagem de que está tudo bem!

Em um estudo realizado em um hospital psiquiátrico, 02 grupos de pacientes maníaco depressivos com tendências suicidas foram submetidos a diferentes terapias. Em um deles foi colocado um esparadrapo nos cantos da boca, o que fazia parecer que estavam sorrindo.
Este grupo apresentou uma melhora mais rápida porque, ao “sorrirem” mandavam ao cérebro uma mensagem de fe-li-ci-da-de!

O que é isso de sucesso? A pressão de ser e ter sucesso pode fazer muito mal à sua saúde... Se sucesso é chegar "lá", lá é onde? Como o espaço é infinito, não existe final ou topo. A gente caminha mas não chega a lugar nenhum, o importante é caminhar. Se sucesso é "dar certo", então é algo bem relativo, depende do que cada um acha certo. Escolha: o sucesso da Marina Abramovic ou da Lady Gaga? Ganhar o concurso de melhor bunda do país ou prêmio de literatura? Hilda Hilst ou Jorge Amado? Festival Internacional de Montemor ou Broadway? Teatro comunitário ou novela na Globo? Experiência de risco ou um milhão de espectadores pagantes? Pequenos ou grandes teatros? Morar em Porto Alegre ou São Paulo? Dar aula ou fazer comercial? Eu tenho minhas preferências, como cada um terá as suas. Nem sempre elas são excludentes, nem sempre tenho a mesma opinião ou as mesmas vontades, quase sempre nada é preto ou branco, me confundo quase sempre. Cada escolha implica diferentes perspectivas de "êxito", tem suas próprias demandas, supõe distintas estratégias. O que é óbvio, claro. Mas não é difícil esquecer tua própria bússola e ficar seguindo parâmetros e mapas de uma sociedade que constantemente vende desejos, ideais, sonhos, fórmulas de sucesso e felicidade que tentam ajustar as pessoas às necessidades do mercado. E enquanto escrevo isso penso nessa música que eu adoro do Nei Lisboa, "eu quero quero quero quero tudo pra mim... quero o mel/u ...eu confesso eu quero é sucesso! eu me entorto depois passo mal, eu me atrolho depois pago o preço eu mereço! "... ;-)

Patricia Fagundes - Diretora da Cia Rústica de Teatro e professora de direção teatral no Departamento de Arte Dramática da UFRGS.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Sessão da Classe apresenta: Airton de Oliveira

“O sucesso se mede por critérios estéticos ou de bilheteria? Acho que essa é uma falsa questão. No meu caso, busco uma terceira via, um equilíbrio. Como Emagrecer Fazendo Sexo é uma comédia despretensiosa, mas que agrada ao grande público e está há seis anos em cartaz. Já O Menino que Aprendeu Cedo Demais é uma peça esteticamente superior, que foi premiada com o Tibicuera mas não tem tanto apelo para o público. Tu podes alternar peças que miram o público e que buscam a realização artística. Entre a estética e a bilheteria, fico com as duas.”

Airton de Oliveira - Ator, diretor, cenógrafo e produtor teatral. Vencedor do Prêmio Tibicuera de Melhor Espetáculo Infantil 2010 por O MENINO QUE APRENDEU CEDO DEMAIS.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sessão da Classe apresenta: Uma leve reflexão sobre sucesso, ofício, retorno público e social, por Hamilton Leite

"O que é sucesso?

No caso de quem é profissional de teatro em Porto Alegre, fazer o que se gosta, tendo a rua por palco, podendo viver do próprio ofício e afirmar que esse é seu trabalho, e ainda levando a tua arte a mais de 20 estados do Brasil e a alguns países da América Latina, pode ser considerado um grande sucesso.

Mas creio que não: é um ofício como qualquer outro.

Quanto à questão de sair do Rio Grande do Sul para fazer sucesso, acho fundamental. Resumir o teu teatro a Porto Alegre e a um estado apenas provoca depressão.

Tu podes falar da tua terra, das lendas, dos contos, mas o regional é universal... é óbvio.
Ironicamente, na primeira vez que a Oigalê está sendo patrocinada, optamos por ficar no Rio Grande do Sul e não sair pelo Brasil. Não decidimos isso para fazer sucesso, mas, sim, para pesquisar e ter um pouco de tranquilidade no processo de montagem de um novo espetáculo. E, mais: para mostrar que com verba suficiente conseguimos levar nossa arte para municípios com 3 mil habitantes, que constituem quase a metade dos municípios gaúchos.

Creio que o teatro do Rio Grande do Sul teria mais sucesso em seu ofício direto com o público se contássemos com mais empresas gaúchas patrocinando o que é feito aqui, e se os nossos governos municipais e estadual investissem mais recursos para que principalmente a população de menor renda possa ter teatro na escola, na indústria, na sala de espetáculo, na rua e em muitos outros locais. Aí poderíamos dizer que isso é um sucesso."

Hamilton Leite - Ator, produtor, diretor e oficineiro teatral. Um dos fundadores da Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sessão da Classe apresenta: ÁGUIA DO MAU GOSTO por Marcelo Adams

"Ao falarmos de sucesso em teatro, imediatamente nos ocorre a ideia de salas cheias, de preferência com gente implorando na bilheteria para entrar, ao que o bilheteiro responde, irredutível, que os ingressos já estão esgotados, mas que podem ser adquiridas entradas para a próxima semana.

Quando pensamos em sucesso, dificilmente desatrelamos esse conceito do desejo de grande afluência de espectadores, e com toda a razão. Afinal, o sentido último das artes cênicas é ser visto por pessoas; nosso trabalho, como artistas do palco, é feito para o deleite de outros (ainda que o prazer de quem atua seja, muitas vezes, superior ao de quem está sentado na plateia). A ideia de Grotowski de que teatro se faz com um ator e um espectador é bonita, mas muito mais simbólica do que prática: teatro funciona melhor quando há uma massa a nos assistir.

Como resposta à dificuldade cada vez maior de colocarmos pessoas nos teatros, nos agarramos a outra possibilidade de significação da palavra sucesso: agora, temos o sucesso artístico, que finge prescindir de um grande número de espectadores, com a desculpa de que teatro é elitista, e de que não ser contemplado com plateias cheias é sinal de um trabalho sério, que “não se vendeu ao mercado”. “A peça não teve público, mas foi um êxito, os críticos adoraram”. Como se tivéssemos críticos, como se o que eles escrevem tivesse alguma relevância como discussão, como se quem publica meia dúzia de frases em blogs sobre um espetáculo pudesse ser qualificado como especialista em teatro.

Na realidade, a ideia de um teatro popular é tão rara, que não deveria ser colocada como objetivo principal. O teatro é, sim, elitista. Aos que lembrarem do teatro grego clássico, não esqueçam que a ida aos anfiteatros era obrigatória para os cidadãos, pois as apresentações de tragédias e comédias áticas eram muito mais um evento religioso, cívico e didático do que artístico. As moralidades e mistérios medievais eram apresentadas em praças e feiras, portanto sem cobrar ingresso (e como prega a velha blague, “de graça até injeção na testa”). Uma possibilidade de teatro popular pode ser atribuída ao teatro elizabetano dos séculos XVI e XVII, onde nobres e plebeus dividiam o mesmo espaço para prestigiar os espetáculos, dividindo sua atenção, em dias alternados, entre tragédias shakespereanas e farras com direito a assassinatos de ursos, uma delicada herança das arenas romanas.

O que nos resta, no século XXI, ainda com a utopia do sucesso a nos morder os calcanhares, é entendermos que ele não é domesticado e tem movimentos inesperados. Nem mesmo as peças com temáticas que envolvam sexo e relacionamentos afetivos homem-mulher, que pareciam imbatíveis, resultam sempre em sucesso de bilheteria. Somos Sísifos, empurrando morro acima a pedra das dificuldades de manutenção de nossa arte, e quando imaginamos estar ela bem assentada lá no alto, lá vem ela rolando até a base, e nos obrigando a reavaliar, repensar, reestruturar, remendar, regurgitar nossas ideias. Também somos Prometeus, amarrados ao penhasco e recebendo diariamente as bicadas da águia do mau gosto do público, que prefere televisão e futebol e que não entende qual é a graça de ficar assistindo, por uma hora, algumas pessoas falando e se movimentando sobre um piso de madeira."

Marcelo Adams - Ator, diretor teatral, dramaturgo, e professor na área de artes cênicas. Fundador da Cia. de Teatro ao Quadrado, de Porto Alegre.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Sessão da Classe vai dar o que falar...A Forra do Teatro por Renato Mendonça

Dias 14 e 15 de março, 20h, artistas no palco e na plateia do Teatro Renascença. Não haverá roteiro nem gênero definidos, mas é certo que haverá drama, comédia e algum pastelão. São dias de Sessão da Classe, quando a dança e o teatro gaúchos vão parar para discutir suas principais questões.

Enredo é o que não falta. O sucesso se mede pelos números da bilheteria ou pelos avanços estéticos? Devemos nos conformar em sermos bancados pelo Poder Público e reunirmos na plateia apenas amigos e agregados? Estamos preparados para atrair os novos espectadores que surgirão nas asas do Vale-Cultura? Só se consegue público fazendo comédia?

Vou estar no palco como mediador e espectador privilegiado. Em 15 anos de jornalismo cultural, é algo que muito raramente presenciei: artistas despidos de personagens, tomando o rumo da história nas próprias mãos. Vamos ter final feliz? Na segunda noite é certo, porque o Breno promete espumante na confraternização do final da Sessão da Classe.

Espero que os dois debates sejam um ensaio geral para uma mobilização espetacular. Se no próximo dia 27 de março já está confirmada a Farra do Teatro, que nos dias 14 e 15 se faça a Forra do Teatro, lavação de figurino sujo, pino de luz nos problemas, tirar a maquiagem e dar a cara limpa a bater, começar logo a função que a TV a cabo, o passeio no shopping e o cinema com ar condicionado perfeito estão a devorar o público.

E não tem desculpa para não meter um caco nessa discussão. De dois em dois dias, até a Sessão da Classe, o blog Mais Teatro vai publicar provocações dos convidados, e cada um e todos os internautas podem e devem comentar os posts, garantindo o aquecimento do debate.

Faltou dizer quem serão os debatedores – e vamos concordar que, com um elenco desses, o sucesso é garantido. Palmas (e perguntas, e críticas, e contra-argumentos) para:

No dia 14, Airton de Oliveira, Daniel Colin, Eva Schul, Patricia Fagundes e Zé Victor Castiel

No dia 15, Alexandre Vargas, Camilo de Lélis, Hamilton Leite, Marcelo Adams e Roberto Oliveira